domingo, 25 de outubro de 2015

E nem deu errado. O ENEM deu certo!



Um grande professor mostrou-me que a educação pública, estadual e municipal, é muito melhor do que pensamos. Claro, como alguém que está inserido nesse sistema, é inegável que eu concorde que está muito, mas muito longe de ser a ideal. Porém, como eu disse, é muito melhor do que saímos dizendo por aí.

O primeiro grande motivo é que na escola pública estão as pessoas que são atingidas diretamente pela ação, ou negligência, do Estado. São os estudantes da escola pública que podem observar de perto a verdadeira face das grandes cidades, ou das comunidades rurais, e, se são convidados a olharem com outros olhos para si mesmos, seja por outras pessoas ou pela própria consciência, começam um movimento de mudança da realidade.

Outro grande motivo é que os professores e as professoras da escola pública são muito competentes e têm a possibilidade de despertar a consciência crítica nos seus alunos. Se o professor, ou a professora, conversar sobre a redução da maioridade penal numa escola particular, corre o risco de receber o pai policial de algum aluno perguntando-lhe por que ele(a) apoia bandidos. Se o(a) professor(a) de matemática resolver conversar sobre os movimentos sociais e a repressão policial comandada pelo Estado, a mãe juíza de algum aluno irá à escola questionar por que o(a) professor(a) está ensinando seu/sua filho(a) a ser "black bloc vagabundo(a)". Se eu resolver parar a aula para contar uma história de superação, minha, ou de outra pessoa, os alunos da escola particular irão perguntar por que não estou falando do assunto da minha disciplina, por que estou gastando o dinheiro dos pais deles com besteira. Se eu colocar uma frase de MV Bill no quadro de uma escola particular, poderei receber um convite de reunião com a direção. Mas faço isso tudo na escola pública e tenho certeza de que meus alunos saem das aulas, no mínimo, questionando-se por que aquelas palavras, por que aquelas histórias. 

A professora, o professor, da escola pública é vista(o) como alguém que traz conhecimento além da sua disciplina. O professor, a professora, da escola particular é vista(o) como empregada(o), que deve seguir os passos engessados escolhidos no início do ano.

Quando um(a) estudante da escola pública coloca-se a favor da redução da maioridade penal, eu sei que sua posição foi pensada por outros, para que ele(a) pense e aja contra si mesmo e contra os que o(a) rodeiam. Quando um(a) estudante da escola particular coloca-se a favor da redução, eu sei que ele(a) está defendendo seus interesses, interesses de sua família, de seu círculo social. Não posso acreditar que são posições equivalentes. Por isso, os estudantes da escola particular nem escutam o(a) professor(a), sobre ser contra à redução, enquanto os estudantes da escola pública saem da aula pensando no assunto. 

Outro motivo é que a mobilização social dos(as) estudantes da escola pública é muito maior do que a dos(as) estudantes das particulares. Não fossem os(as) estudantes das escolas públicas, as passagens de ônibus estariam muito maiores hoje em nosso país, nem haveria passe livre em algumas cidades. Não fossem os(as) estudantes das escolas públicas, não haveriam muitos debates complexos nas esquinas, nas ruas das periferias. Eles e elas sabem problematizar e solucionar a realidade. As questões políticas tratadas pelos(as) estudantes da escola pública são diferentes das tratadas pelos(as) estudantes da escola particular. Por isso, as posições ideológicas daqueles(as) não podem compactuar com as destes(as). O debate político acontece, sim, na escola pública. 

A construção de uma sociedade mais justa, ética e moralmente aceitável perpassa pela movimentação política (partidária, ou não) dos(as) seus(uas) cidadãos e cidadãs, sendo que a base, que é formada pelas massas populacionais, é o local da ação dessa movimentação. Dessa forma, as lutas das periferias, dos(as) marginalizados(as), dos(as) ribeirinhos(as), dos(as) camponeses(as), dos(as) indígenas(as) constituem a pedra angular dessas transformações.

Falar de mudança de paradigma numa proposta de sociedade que descarta as pessoas quando deixam de oferecer o que o capital acha aceitável, é ser ousado(a) o bastante para acreditar na revolução popular como saída da crise existencial dessa proposta. E essa crise se reflete nas perseguições planejadas contra o povo. O machismo, o sexismo, a homofobia, o patriarcado, a violência contra a mulher, contra crianças e adolescentes, etc., são consequências diretas do pensamento de que pessoas são descartáveis.

A escola pública acrescenta aos(às) seus(uas) alunos(as) o debate a partir da realidade e a autonomia dos seus professores torna o caminho ao reconhecimento de suas capacidades e de seu protagonismo, possível. Por isso, o debate sobre as formas e as ferramentas necessárias para mudar a realidade, é tão importante desde o ensino básico.

Ao encontrar todos esses assuntos na prova do ENEM, os(as) estudantes da escola pública percebem-se parte da construção social baseada em ideais revolucionários. A prova convida os(as) candidatos(as) a refletirem sobre as questões de gênero, sobre a ditadura, sobre as ideias de coletivo de Paulo Freire, etc. Essa é uma resposta, um posicionamento, do MEC em favor da consciência crítica desenvolvida nas escolas públicas, em favor de que esses sejam os ideais dos estudantes que ingressem numa universidade pública. Afinal, esse é o local de direito dos estudantes da escola pública.

Assim, ocupar os espaços públicos, que são nossos por direito, desde a universidade pública às salas de aula das escolas públicas como professores e professoras, conscientes do nosso papel social, da construção daquilo que chamo de Civilização do Amor.

E aos defensores das políticas de ódio, das leis de Talião, dos descartes populacionais, é importante lembrar que o choro é livre e vocês não passarão.

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